Empowered patients

Não é surpresa o fato de que hoje assistimos a uma transformação na Medicina impulsionada por novas tecnologias. Modernidades como a inteligência artificial, dispositivos vestíveis (wearables, insideables), robôs cirúrgicos e a nanotecnologia estão proporcionando avanços médicos a uma velocidade recorde.

Porém, essa evolução na saúde não pode se consolidar sem uma parceria sólida entre médicos e pacientes. Essa sintonia é fundamental e proporciona o surgimento dos empowered patients como peça chave para impulsionar esse progresso médico.

O termo empowered patients deriva da ideia de pacientes empoderados, engajados, equipados ou experts. A origem do termo remete ao início dos anos 2000, época na qual os pacientes começaram a procurar ativamente informações na internet sobre doenças, tratamentos e diversas condições de saúde. Consequentemente, a literatura médica passou a ser democratizada. 

Anteriormente, esse tipo de informação era restrita apenas aos médicos, herança da tradicional Medicina hipocrática, na qual o paciente era visto como incapaz de compreender sua condição de saúde.

Com a democratização da literatura médica, os pacientes começaram a questionar as informações em saúde, pesquisadas previamente na internet, durante os atendimentos em consultório. A Medicina tradicional não estava preparada para conviver com essa mudança de paradigma na atenção em saúde, da forma diretiva para a cooperativa. 

Esses questionamentos feitos pelos pacientes alteraram a dinâmica das consultas e, muitas vezes, não foram bem aceitos pelos médicos. Hoje, esse fato ainda causa atrito na relação médico-paciente quando as partes não estão preparadas para lidar com essa mudança em prol da democratização na saúde.

Frequentemente, as crenças e opiniões dos pacientes são marginalizadas em decisões que remetem à condutas em saúde . Isso deriva da estruturação vertical, “em formato de pirâmide”, na qual os stakeholders da saúde estão posicionados, considerando o grau de importância em decisões referentes à área da saúde. Na base da pirâmide, e com maior poder definidor, estão o governo, as seguradoras, os planos de saúde e a indústria farmacêutica. No meio da pirâmide, estão os profissionais de saúde e no ápice, com menor poder de decisão, estão os pacientes. 

Consequentemente, a opinião do doente tem um peso ou relevância menor, tanto em decisões de nível de saúde pública como em decisões particulares, por exemplo os casos de consultório. Isso precisa evoluir. O empoderamento dos pacientes, em sinergia com os demais stakeholders, é fundamental para impulsionar os avanços tecnológicos na saúde.  

Já existem algumas plataformas estrangeiras que estão apostando em modelos de negócios baseados no empowered patients (empoderamento dos pacientes) e também em movimentos participativos como o crowdsourcing (contribuição colaborativa) para a atenção em saúde. 

Uma iniciativa interessante que explora o conceito de empowered patient pode ser observada pela plataforma Smart Patients. (Disponível em: https://www.smartpatients.com/ ). O negócio é B2B “business to business“. A proposta é oferecer curadoria profissional em saúde para grupos de pacientes de instituições clientes, em um ambiente digital.

Na plataforma Patients Like Me (https://www.patientslikeme.com/) comunidades são formadas por pacientes para a discussão de enfermidades. O ambiente digital favorece a troca de informações e o desenvolvimento de redes de apoio entre os participantes que compartilham o mesmo diagnóstico.

É notável considerar que a plataforma Patients Like Me já foi utilizada como fonte de dados para testar hipóteses em trabalho científico. (WICKS, Paul et al. Accelerated clinical discovery using self-reported patient data collected online and a patient-matching algorithm. Nature biotechnology, [S. l.], v. 29, n. 5, p. 411-416, 24 abr. 2011. DOI nature biotechnology doi:10.1038/nbt.1837). 

Já, a ideia colaborativa relativa ao crowdsourcing é proposta de forma interessante na plataforma Crowdmed. (Disponível em https://www.crowdmed.com/). Aqui, o negócio é B2C “business to customer”. A empresa digital remunera médicos “chamados de detetives” para solucionar casos clínicos postados por pacientes “clientes” que aderiram a planos oferecidos pela plataforma.    

Para concluir, a ideia central do texto relaciona os avanços tecnológicos na saúde em sintonia com o empoderamento dos pacientes. Segundo o médico e escritor Bertalan Meskó (Disponível em: https://medicalfuturist.com/about-bertalan-mesko/ ), esse tema remete a “ cuidado em saúde transparente e digitalizado, árvores de decisão, conteúdo com curadoria online, e-patients, médicos digitalizados e um mundo sem barreiras para a colaboração em saúde”. 

Achou a proposta interessante? Qual a sua opinião?